SÉRGIO SANTOS· Advogado ·
Juros abusivos · Como calcular

Como saber se os juros do meu contrato são abusivos?

22 de outubro de 2026 Leitura de 6 minutos

A cena se repete no escritório. O cliente chega com o contrato de crédito pessoal na mão e a mesma frase de sempre: “sei que o banco cobra juro, mas esse aqui parece alto demais”. Ele nunca comparou a taxa dele com nada — simplesmente aceitou, porque achava que todo banco cobrava igual.

Já me segue se você nunca mais quer dar dinheiro à toa pro banco. No @sergiosantos_adv eu mostro, quase toda semana, mais uma conta que o banco não espera que o cliente saiba fazer.

Não é verdade. Juro bancário tem referência pública, divulgada pelo próprio Banco Central, e qualquer pessoa pode comparar o contrato dela com essa referência em cinco minutos, sem pagar perito e sem entender nada de matemática financeira.

O banco pode cobrar o juro que quiser?

Não. A liberdade do banco para fixar taxa não é absoluta. O Código de Defesa do Consumidor veda cláusulas que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada (art. 51, IV), e o próprio Superior Tribunal de Justiça já afirmou que a taxa média de mercado divulgada pelo Banco Central é o referencial para medir se uma taxa contratada está fora da curva (REsp 1.061.530/RS, Rel. Min. Nancy Andrighi).

O problema é que quase ninguém sabe onde está essa taxa média, nem como comparar. É exatamente essa conta que eu vou te ensinar a fazer.

O que importa: o CET ou a taxa de juros ao mês?

O CET (Custo Efetivo Total) aparece destacado no contrato e mistura tudo: juro, IOF, tarifa de cadastro, seguro. Ele é útil pra comparar propostas de crédito entre si, mas não é o número certo para medir abusividade de juro, porque mistura encargos de natureza diferente.

O que se compara com a tabela do Banco Central é a taxa de juros remuneratórios ao mês — geralmente escrita no contrato como "taxa de juros efetiva mensal" ou "taxa de juros ao mês". É essa taxa, e só essa, que entra na conta.

Como eu mesmo descubro a taxa média do Banco Central?

O Banco Central publica, mês a mês, a taxa média cobrada pelos bancos em cada tipo de crédito, no sistema público SGS (Sistema Gerenciador de Séries Temporais) — gratuito, sem login.

Qual é o critério para saber se o meu juro é abusivo?

Esse é o critério que o escritório usa, na prática, pra triar um caso antes de entrar com ação revisional: multiplicar a taxa média do Banco Central por 1,5. Se a taxa do seu contrato for igual ou maior que esse resultado, há forte indício de abusividade, e cabe ação de revisão.

A conta, em reais — exemplo real de um crédito pessoal
Valor do empréstimoR$ 8.000,00
Prazo18 parcelas
Taxa contratada11,5% ao mês
Parcela contratadaR$ 1.071,02
Taxa média BACEN (cód. 25466) no mês do contrato6,8% ao mês
Limite da taxa média x 1,510,2% ao mês
Parcela dentro do limite de 1,5xR$ 988,09
Diferença por mêsR$ 82,93
Pago a mais nas 18 parcelas≈ R$ 1.492,74

A taxa contratada (11,5%) ficou acima do limite de 1,5x a média (10,2%). É exatamente esse tipo de contrato que entra na mira de uma ação de revisão.

O que os tribunais já decidiram em casos parecidos?

Esse critério não é teoria isolada do escritório — ele aparece em decisões recentes, com a conta feita do mesmo jeito:

Como aplicar esse passo a passo no meu contrato, agora?

Salva esse passo a passo. No dia em que você (ou um parente) estranhar a parcela de um contrato, você faz essa conta em cinco minutos, sem depender de ninguém:

  1. Abra o contrato e localize a taxa de juros remuneratórios ao mês — não o CET, que mistura outros encargos.
  2. Acesse o site do Banco Central e procure o SGS (Sistema Gerenciador de Séries Temporais): Estatísticas de crédito › Taxas de juros › Taxa de juros a.m. › Taxas de juros com recursos livres.
  3. Identifique o código da modalidade mais parecida com o seu contrato (exemplo: código 25466, crédito pessoal não consignado).
  4. Em "Consultar séries", informe a data em que você assinou o contrato e clique em "Visualizar valores" — esse é o número da taxa média daquele mês.
  5. Multiplique a taxa média por 1,5. Se a taxa do seu contrato for igual ou maior que esse resultado, guarde o print: há forte indício de abusividade.
  6. Guarde o contrato, o print da taxa do BACEN e a conta feita — é com esses três documentos que a análise é feita.
A opinião do Dr. Sérgio Santos

"O cliente que paga juro acima do dobro da média do mercado não fez um mau negócio: foi exposto a uma taxa fora da curva que o banco sabia ser fora da curva. A referência pública existe, é gratuita, e qualquer pessoa pode conferir. Fazendo essa conta e encontrando uma taxa igual ou maior que 1,5 vez a média, há forte indício de abusividade — e cabe ação de revisão para discutir isso perante o Judiciário."

Fez a conta e a sua taxa passou do limite?

Manda pra gente o seu contrato. A gente confere a taxa com a série oficial do Banco Central e avalia se cabe ação de revisão, sem custo e sem compromisso.

Este texto tem caráter informativo e não constitui parecer jurídico. A viabilidade de qualquer ação depende da análise do contrato e da série oficial do Banco Central do caso concreto.

← Voltar às publicações

Compartilha este artigo e ajuda pessoas sufocadas por dívidas a respirarem outra vez.